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sexta-feira, 2 de março de 2018

✓ Análise e Resumo: Éramos Seis - Maria José Dupré



Sinopse: Uma manhã ensolarada na capital paulista, no começo da década de 1940. Dia banal, como outro qualquer, mas não para D. Lola: ela observa, pelo lado de fora, a casa onde morou durante anos com a família e que já não é mais sua. Quem habitará esse espaço agora? Como estarão os cômodos, outrora velhos conhecidos?
Seus devaneios reacendem episódios que ela guarda como relíquias, Emolduradas por fatos históricos que pontuaram as primeiras décadas do século XX, essas memórias evocam os sacrifícios e as conquistas passados ao lado do marido e dos filhos. Uma narrativa comovente que aviva nos leitores o valor dos momentos transitórios da vida.

Título: Éramos Seis (Skoob) | Autor: Maria José Dupré | Gênero: Ficção Histórica | Editora: Ática | Páginas: 293 | Onde comprar: Amazon / Submarino | Classificação: 10 (Excelente!)

Assista aqui:



Maria José foi uma autora brasileira nascida em Botucatu SP em 1898. Professora por formação, mas nutriu a paixão pela literatura desde a infância.

Começou publicando contos no suplemento literário de O Estado de S. Paulo com o pseudônimo de Mary Joseph e incentivada pelo seu esposo que dizia que seus contos mereciam ser vistos.

Em 1943 publicou esse que é seu segundo romance, e recebeu o prêmio Raul Pompéia da Academia Brasileira de Letras, em 1944.

A autora também ficou conhecida por publicar obras infantis, muitos na série vaga-lume, como O Cachorrinho Samba que venceu o prêmio Jabuti e A Ilha Perdida.

Infelizmente a autora é subestimada e até esquecida no Brasil.

Essa obra foi adaptado para o cinema, como também para a televisão em quatro ocasiões, na forma de telenovela


Atenção: essa análise contém muitos spoilers! 

Éramos Seis conta a história de Dona Lola, narrada pela mesmo, já na velhice. Uma bondosa e batalhadora mulher que faz de tudo pela felicidade de sua família, principalmente negar qualquer coisa para si em benefício dos filhos que são seus bens mais preciosos.

Esposa de Júlio, um vendedor, com quem gerou seus quatro filhos: Carlos, Alfredo, Julinho e Isabel. A história se desenrola cerca de duas décadas, iniciando nos anos 20, no período final da República Velha, mostra o plano de ocupação da cidade de São Paulo citando Marechal Isidoro inclusive, e terminando nos anos 40, durante a II Guerra Mundial, já nos anos finais do Estado Novo.

“Setembro. Soldados feridos em todos os hospitais; soldados mortos. E as rosas dos jardins paulistas enfeitando túmulos. Túmulos cheios de rosas; olhos cheios de lágrimas; lábios cheios de orações... As esperanças caindo uma por uma como folhas mortas. Dor. Angústia. Desalento. Névoa no céu e na terra; nos olhos e nas almas. Desilusão.”

Dona Lola então já na velhice, onde sabemos nas primeiras páginas que ela contempla a casa onde viveu toda sua vida, seus melhores e piores momentos. Contempla de fora, de longe, pois a casa não lhe pertence mais e então entramos na narrativa de suas memórias, e olha, só de lembrar agora, já me arrepia.

Contando desde sua infância no interior, em Itapetininga, as dificuldades que a mãe teve para criar à ela e as duas irmãs após a morte do pai, partindo para a vida difícil ao lado do esposo Júlio, um homem que a princípio pegamos um certo “ranço” pelas cenas que aparece bêbado após o trabalho, maltratando a mulher e aos filhos. Aos poucos vamos vendo, porém sempre através dos olhos de Lola, que ele não era uma pessoa ruim, apesar de rude, amava muito a família. Temos que lembrar sempre de contextualizar já que a época é de meados de 1920, o machismo era algo mais forte, digamos, e estava enraizado até mesmo em Lola. Júlio trabalha arduamente para pagar as prestações da casa, que está ambientada num cenário real, na avenida Angélica, em São Paulo, nas proximidades do parque Buenos Aires, no local onde mais tarde se ergueu o Edifício São Clemente.

Os sonhos são pequenos e humildes como os nossos, trabalhadores, a princípio pagar a casa e então poder pagar a faculdade dos quatro filhos, entre eles o mais estudioso, Carlos, que sonha em ser médico.

Abrangendo esses dramas familiares, a autora nos enche de pequenas alegrias desde as lembranças doces dos filhos pequenos correndo pela casa num sábado de manhã (eu sofro pensando que um dia isso será uma lembrança pra mim também), até a dor da morte de sua mãe e seu esposo, pessoas a quem ela tanto amou, ambos levados por enfermidades, coisa normal para a época, onde os tratamentos eram caros e bem superficiais. Dona Lola relembra a úlcera estomacal que levou o marido, que acredita que poderia ter sido evitado se ele a ouvisse e não comesse tanta pimenta.

Júlio morre no ano que mais aguardou em sua vida, o ano em que terminaria de pagar as prestações e a casa seria finalmente sua, leva com ele o sonho de ternar-se sócio na loja onde trabalhava, quando precisa de um valor alto em dinheiro para isso, que lhe foi negado por todos o empréstimo, até pela tia rica de Lola. Júlio morre cheio de sonhos, na metade na vida, deixando totalmente desamparada a esposa e os filhos, que a partir daí terão de lutar muito para não perder o teto sobre as cabeças e poder comerem.

Lola é o tipo de mãe que morreria com sorriso no rosto pelos seus filhos, cada relato dela sobre a falta de alimento, de colocar na mesa apenas o arroz sem nenhuma mistura, é de fazer qualquer mãe chorar.

Aqui o período de grandes transformações sociais e comportamentais da sociedade paulista serve como cenário, que num geral influenciam diretamente as ações dos personagens. Como no caso do segundo filho, Alfredo, que dono de uma personalidade forte desde a infância, identifica-se no comunismo, coisa que era muito mal vista pelas famílias “de bem” na época, tanto que dona Lola não entende sobre o que essas reuniões que o filho frequenta trata, não consegue distinguir a diferença entre o comunismo, anarquismo e o socialismo, e tudo isso vai moldando o rumo da vida dessa família.

Conforme os capítulos, os anos também vão passando, vemos essa mãe fazer o possível e o impossível, vendendo doces e dependendo de muita ajuda para criar os filhos, sofrendo por não poder mais pagar suas faculdades.

Carlos, o filho mais próximo da mãe, deixa a faculdade de medicina para trabalhar e ajudá-la, dando todo seu dinheiro em casa. Alfredo por muitas vezes nos desperta raiva, apesar do amor que tem pela mãe, seu espírito livre fala mais alto, sendo por muitas vezes egoísta, prejudicando indiretamente a mãe e os irmãos para viver seus ideais, até o dia que se mete em um briga com a polícia e foge do país, deixando a mãe sem contato por anos.

Julinho que é o terceiro filho, um bom filho, sucede o lugar do pai, tornando-se um comerciante importante e mudando-se para o Rio de Janeiro à negócios. Isso resulta em mínimas visitas a mãe, já que casou-se e tem sua própria família. Agora no lar onde moravam seis, moram apenas três.

Isabel, a caçula, tem um gênio forte, parecido com Alfredo, mas por ser mulher não tem a mesmo autonomia, pela época, mas isso não a impede de se apaixonar por um homem divorciado, deixando a mãe em prantos.

Na época divórcio era um tabu, e com forte influência da igreja católica, não era visto com bons olhos aqueles que se separavam. Portanto Lola impõe a Isabel que largue aquele homem, Felício. Sofrendo em abrir mão do amor de sua vida, Isabel decide fugir e viver esse amor, deixando assim a mãe sem notícia por anos, e uma mágoa forte em cada página.

Como o livro trata da realidade, ainda teremos a morte trágica de Carlos, o único filho que ficou ao lado da mãe até sua quase velhice, pois Lola ainda era uma jovem senhora quando o primogênito padece da mesma doença do pai.

“(...)me vi quase só com ele naquela sala vazia, ouvindo o relógio bater as horas compassadamente, pingando os minutos que me separavam do passado. Parecia que o relógio fazia de propósito; todas as vezes que eu estava lembrando, ele começava a bater: dom! dom! dom! Devagar e tristemente, como se dissesse: Lembra! Lembra! Lembra!”

Por fim, vemos que o título da história se dá a situação atual de Dona Lola no início do livro, sozinha numa casa de repouso dirigida por freiras, onde ela passa os dias a relembrar sua vida esperando docemente que a morte a encontre e a leve para o lado daqueles que ela tanto amou.

“No meu último aniversário, recebi um pacote de minha irmã Clotilde, vindo de Itapetininga; abri com curiosidade. Havia “uma” caixinha de figos cristalizados, “uma” lata de goiabada em calda e “um” tijolo de pessegada. Apenas.”

Notaram como essa obra traz um drama comum, que não traz uma história de amor nem questionamentos filosóficos ou intelectuais, mas que passa um grande conhecimento seja no período em que está, ou na forma como do gênero é colocado numa metrópole de aspecto interiorano que vai virando uma megalópole. Entre fatos corriqueiros de uma família nós mostra a rápida urbanização da capital paulista, a presença de uma elite econômica muito distante das classes média e baixa, assim como a autonomia da mulher que começava a ser conquistada na trabalho fora de casa e o tabu do casamento insolúvel. Também coisas pertinentes dos dias atuais como a atribuição da criação dos filhos somente a mãe.

“Quando dei um suspiro de alivio e disse comigo mesmo: agora posso dormir tranquila, compreendi que essas palavras não foram feitas para mim e que é muito difícil uma mãe pobre com quatro filhos dormir tranquila.”

Acaba por nos fazer refletir sobre temas comuns, que passam despercebidos em nossas vidas, principalmente a questão de que tantas décadas de dedicação a um lar que acaba não tão recompensador, por mais que seja algo da vida, mostra o desvalor que os próprios filhos, ao criarem seus próprios lares, acabam por dar aos seus progenitores.

“Para que tanto trabalho, tanto esforço, tanta luta neste mundo, se o fim de todos é o mesmo: ficar deitado entre quatro tabuas, no escuro e com uma porção de terra por cima?”


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1 comentários:

  1. Fui na biblioteca e esse livro me chamou a atenção pelo título, para minha surpresa quando ao pesquisar descobri sobre a novela. Esse livro é fantástico, é bem um diário.

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