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sábado, 8 de dezembro de 2018

✓ Análise Interpretativa: A Metamorfose - Franz Kafka



Título: A Metamorfose (Skoob) | Autor: Franz Kafka | Gênero: Ficção | Editora: Biis | Páginas: 90 | Onde comprar: Amazon / Submarino | Classificação: 5





 Você pode assistir ao vídeo ↑ ou se preferir ler a análise abaixo. ↓


A Metamorfose é uma novela escrita por Franz Kafka, escritor de língua alemã, publicada pela primeira vez em 1915. Veio a ser o texto mais conhecido, estudado e citado da obra de Kafka.
Apesar de ter sido publicada em 1915, foi escrita em novembro de 1912 e concluída em vinte dias.
Iniciando com uma observação sobre o autor: Kafka tinha uma relação complicada e turbulenta com seu pai, o que teve uma grande influência sobre sua escrita e iremos ver isso claramente no tratamento do pai com o filho nessa obra.
Existe uma publicação póstuma chamada “Cartas ao Pai”, que consiste exatamente em uma carta que o autor escreveu ao seu pai, nunca foi enviada. Pretendo ler esse próximo ano, volto para contar mais sobre assim que o fizer.

Aqui temos Gregor Samsa, o filho mais velho de uma família relativamente pobre, composta por pai, mãe e uma irmã, que assume para si as responsabilidades do sustento da casa e da família, trabalhando muito para prover conforto a todos.
Então temos a primeira frase do livro: “Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso inseto.”

Diante de algo tão surreal como acordar com o corpo de inseto, a maior preocupação de Gregor estava ainda no sustendo e bem-estar da família, preocupando-se em perder a hora do trabalho.
Ao desenrolar da trama vemos que a preocupação nunca é consigo, Gregor passa até mesmo a se esconder debaixo dos móveis de seu quarto durante as poucas vezes em que alguém da família entra lá, para poupa-los de ver a horrível criatura que havia se tornado.

A princípio a irmã que Gregor sempre amou incondicionalmente - que inclusive pretendia fazer o impossível para que estudasse música no ano seguinte - tentou suportar sua forma asquerosa, fazendo o mínimo para alimenta-lo e dar-lhe dignidade, no entanto com o passar dos dias, vendo que sua condição não melhorava, o teve como estorvo e foi a primeira a deixar entender em alto tom que “algo precisava ser feito”. Então começa o processo para retirar de Gregor o que ainda lhe resta de humanidade. Convencendo a mãe de que ele precisava de espaço, lhe são retirados os móveis do quarto, e as lembranças de sua vida ali começam a enfraquecer, jogando-o cada vez mais ladeira a baixo.
A mãe de saúde frágil, esconde qualquer opinião atrás disso, fechando os olhos para tudo que se passa com o filho.

Uma passagem interessante é quando o protagonista vê seu pai retomar as rédeas da casa, trocando a postura de outrora cansada, escorando-se na bengala, cabelo desgrenhado e pouca energia, para um homem de farda bem abotoada, alinhado, forte e enérgico. Mostrando que enquanto pode, encostou-se no filho e na hora que o filho não podia mais ampara-lo, tomou uma postura independente, fazendo pouco de quem antes o havia ajudado.
Gregor então passa a ser um fardo para todos de sua família, onde tudo de ruim lhe é atribuída a culpa, como exemplo a dificuldade em mudar-se de casa onde o mencionavam – “o que faríamos com ele?” (ainda que houvesse formas simples para isso, como colocá-lo dentro de uma caixa para o transporte como o próprio pensa em sugerir).
Então chega o desmazelo total, a irmã que primeiramente preocupara-se em manter o mínimo para a sobrevivência de Gregor, passa a não reparar mais se ele se alimenta ou não, se o quarto está imundo ou se Gregor necessita de claridade, ele simplesmente passa a coexistir com a imundice, cabelos e poeira presa as suas patas repugnantes.

“Poderia ser realmente um animal, quando a música tinha sobre si tal efeito?”

Sobre a metamorfose, o autor nós da dicas, mas não comos e porquês deliberados. A metamorfose deve ser encarada como uma metáfora que tanto pode ser vista pelo ângulo de uma invalidez, que pode acometer qualquer um de nós a qualquer momento, assim como uma depressão, onde desistimos da vida quando passamos a acreditar que nossa simples existência prejudica quem amamos.

 “Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio?”

Então a indiferença da família finalmente somou-se a sua própria, ele apenas abandonou a si. Em ambas interpretações, o livro trata do abandono familiar, do egoísmo e de como a sociedade capitalista restringe o valor do ser humano ao que ele produz.

A obra é escrita de forma bastante singular e não é à toa que hoje temos o termo "kafkiano", que se popularizou em português como algo complicado, labiríntico e surreal, como as situações encontradas aqui, numa narrativa do absurdo em meio à quase total indiferença e normalidade do dia-a-dia.

O final me levou a refletir um pouco além de Gregor (que após "inutilizado" pela sua metamorfose tornou-se algo de que a família precisava livrar-se certo?) na última cena, os pais notam que sua filha está com um corpo diferente (a mesma coisa que aconteceu com Gregor não é mesmo?) nesse caso, crescida e com um corpo jovem, que os fez refletir se não era hora de lhe arrumarem um marido, e assim então livrar-se da filha mulher também, sabendo que na época em que a obra foi escrita (e arisco dizer que até mesmo em dias atuais) depois de certa idade se não casadas, nós nos tornamos estorvos para nossas famílias (a tia dos gatos). Uma parte que pode problematizar isso é a que Gregor diz que é de mau grado que os pais tratam o assunto da filha estudar música. Fica aí a reflexão.

E a polêmica: era por fim o inseto, uma barata?
É característica de Kafka usar expressões intencionalmente ambíguas e que na frase encaixam-se perfeitamente, em todos os sentidos. Um exemplo é encontrado exatamente na primeira frase. Os tradutores geralmente traduzem a palavra Ungeziefer como "inseto", ou "inseto monstruoso"; no alemão usado no meio coloquial de Kafka, Ungeziefer significava literalmente "um animal insuficientemente limpo para o sacrifício” no alemão moderno significa "verme", "inseto". Às vezes é usado coloquialmente como "bicho" – um termo bastante genérico, ao contrário do termo científico "inseto".
Há uma única ocasião em que a metamorfose de Samsa é nomeada de Mistkäfer, que seria em tradução livre “besouro”, mas quem diz isso não é o narrador e sim a empregada, que, como observou Vladimir Nabokov ao examinar o caso, estava provavelmente tentando ser “simpática” ao patrão. Ou seja, provavelmente era bem pior que um simples besouro!


Pra mim será sempre uma barata, já que é, novamente para mim, o inseto mais asqueroso que existe!


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