✓ Resenha - Os Diários de Sylvia Plath, 1950 - 1962

domingo, 22 de abril de 2018


Sinopse: "É impossível ‘capturar a vida’ se a gente não mantém diários."
Nesta nova edição, a Biblioteca Azul traz os diários de uma das poetas mais aclamadas do século XX, traduzidos dos manuscritos originais do Smith College, além de um caderno de fotos com imagens de vários períodos da vida da autora.
Sylvia Plath começou a escrever memórias e diários aos onze anos, o que fez até sua morte, aos trinta. A narrativa central desta edição abrange oito diários de sua vida adulta, de 1950 a 1962, dispostos separadamente, em ordem cronológica, além de quinze fragmentos de diários e cadernos de anotações, escritos entre 1951 e 1962, organizados também cronologicamente como apêndices.
"Minha vida, sinto, não será vivida até que haja livros e histórias que a revivam perpetuamente no tempo", disse Plath.
Os relatos de seus anos como universitária, no Smith College, em Massachusetts, e no Newnham College, em Cambridge, o casamento com Ted Hughes e dois anos de sua vida como professora e escritora na Nova Inglaterra, além de rico material para os leitores interessados na vida da poeta, lançam uma nova luz à vasta produção poética e em prosa da autora, amplamente autobiográfica.

Título: Os Diários de Sylvia Plath 1950 - 1962 (Skoob)
Autor: Sylvia Plath com organização de Karen V. Kukil
Gênero: Não-Ficção / Biografia
Editora: Biblioteca Azul
Páginas: 824
Onde comprar: Amazon
Classificação: 9,6 (Excelente!)
Livro cedido pela editora.



“[...] Sou apenas uma gota a mais no imenso mar de matéria, definida, com a capacidade de perceber minha existência. Entre os milhões, ao nascer eu também era tudo, potencialmente. Eu também fui cerceada, bloqueada, deformada por meu ambiente, pela manifestação da hereditariedade. Eu também arranjarei um conjunto de crenças, de padrões pelos quais viverei, e no entanto a própria satisfação de encontra-los será manchada pelo fato de que terei atingido o ápice em matéria de vida superficial, bidimensional – um conjunto de valores.” (p. 45)

Em seus diários, Sylvia Plath narra acontecimentos ao mesmo tempo em que escreve poesias, refletindo sobre o tempo, o cotidiano, relacionamentos e sexualidade. Questiona coisas que nos passam despercebidos, como o tiquetaquear de um relógio. Há uma enorme profundidade em suas palavras, mesmo em pequenos trechos soltos sobre fatos aleatórios. É possível sentir uma certa apreensão, a necessidade de algo maior e profundo, uma busca incessante por aquilo que não sabemos bem o que é. 

“Quando não há nenhum oásis futuro no deserto do tempo, é como viver numa régua de cálculo de fantasias sonhadas.” (p. 190)

Aos dezoito anos de idade, escreve sobre o machismo, a importância das aparências e de ter pretendes para sair. Sylvia narra a angústia de estudar coisas desnecessárias quando se deseja escrever e pensar e compreender um pouco do mundo. Durante a época da faculdade, seus textos demonstram certa solidão, um desapontamento constante com os homens e com o fato de não encontrar nenhum que corresponda à sua alma - todos só desejam os prazeres da carne. 

Sylvia critica a sociedade, o papel da mulher e a impossibilidade de ser você mesmo em determinadas ocasiões. Relata a angústia em perder sua personalidade e individualidade ao casar, algo que não deseja, mas a sociedade impõe - ela inveja a liberdade dos homens. Seus versos ponderam sobre a escolha de um marido, o dilema de casar-se e ter de se privar de outras coisas, a autora analisa seus pretendentes assim como analisa suas opções de estudo após a faculdade.

“Quanto ao livre-arbítrio, resta ao ser humano uma fresta tão estreita dele para se movimentar, esmagado que é desde o nascimento pelo ambiente, hereditariedade, época, local e convenção social.” (p. 49)

Suas palavras são poéticas, reflexivas e repleta de expressões. A leitura é muito íntima: estamos na pele de Sylvia e sentindo toda a profundidade da sua vida. Gostei muito da escritora, seu modo de ver a vida e suas palavras, sejam belas ou de dor, nos faz pensar o quanto tudo o que ocorre ao nosso redor é real, mesmo as banalidades. Sylvia é perfeccionista com suas obras, é repleta de camadas. Contudo, senti-me por vezes uma invasora dos sentimentos mais íntimos da autora (e, cá entre nós, eu não gostaria de ter meus pensamentos mais íntimos expostos por aí).

“... Para que serve minha vida e o que vou fazer com ela? Não sei e sinto medo. Não posso ler todos os livros que quero; não posso ser todas as pessoas que quero e viver todas as vidas que quero. Não posso desenvolver em mim todas as aptidões que quero. E por que eu quero? Quero viver e sentir as nuances, os tons e as variações das experiências físicas e mentais possíveis de minha existência. E sou terrivelmente limitada. [...] Talvez por isso queira ser todos – assim, ninguém pode me culpar por eu ser eu.” (p. 59)

A autora capta com maestria a poesia do cotidiano, relata momentos simples e sociais de forma inspiradora. Sua escrita e vontade se tornar-se escritora é envolvente. Ao longo dos diários, há relatos a respeito de seu casamento com Ted, também poeta, e seus sonhos de escritores. No mesmo período, enfrenta o medo de escrever e não ser boa o suficiente, a angústia de não conseguir escrever como deseja ou a espera por uma resposta após o envio de seus poemas às revistas, além da raiva das exigências da sociedade e a necessidade de ter um emprego fixo para conseguir se manter. Ela sente-se muitas vezes deprimida e sem saber o que fazer.

“O que eles desejam afinal? Preocupam-se com um emprego estável e bem pago, carros, boas escolas, tevês, geladeiras, lava-louças e segurança em Primeiro Lugar. Para nós essas coisas todas são muito boas, mas vêm em segundo lugar. Mesmo assim, estamos apavorados. Precisamos ganhar dinheiro para comer e ter um teto e filhos; escrever talvez não renda nunca o bastante para isso. Então a sociedade mostra a língua para nós.” (p. 506)

Em meio aos seus escritos, há esboços de contos e poemas, além de citar os que foram publicados. O desejo de viver como escritora é palpável, visceral, mas há também muita dor e sentimentos depressivos em seu cotidiano. Apesar de ainda não ter lido a obra Redoma de Vidro da autora, meu primeiro contato com Plath foi por meio de uma frase que gosto muito, citada em dois livros de outros autores: “Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro. Ergo as pálpebras e tudo nasce outra vez. (Creio que inventei você no interior da minha mente.)”

“[...] Não sei por que não vou logo para a cama dormir. É que aí o dia de amanhã chegará, e por isso resolvo perder mais uma hora de sono e viver, por mais cansada que esteja e incoerente que pareça. Se não tiver esse período para ser eu mesma, para ficar aqui sozinha, escrevendo, de certo modo perderia minha integridade, inexplicavelmente.” (p. 103)

A narrativa é poética e íntima, conhecemos muito sobre a vida da autora: seus desejos, medos, inseguranças, sonhos, tristezas mais profundas. A capa é bonita e a obra é muito fiel: a grafia original dos diários foi mantida, assim como alguns desenhos. Os diários concentram-se no início da vida adulta da autora, em 1950: seus estudos na faculdade Smith College, em Northampton (Inglaterra), e posteriormente na Faculdade de Cambridge, o casamento com o poeta Ted Hughes, o trabalho como professora, escrevendo também sobre a relação ruim com a mãe e a morte do pai quando ainda era criança. Há fatos também pouco mencionados, como a tentativa de suicídio (posteriormente sendo internada em uma instituição psiquiátrica por um período), os dois filhos com Ted e os problemas em seu casamento. Os diários escritos após 1962 foram destruídos por Ted.

“[...] Se você estiver morta, ninguém poderá criticar, e se o fizerem, não a atingirão.” (p. 552)






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