✓ Resenha: O Sorriso da Hiena - Gustavo Ávila

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Sinopse: É possível justificar o mal quando há a intenção de fazer o bem?
Atormentado por achar que não faz o suficiente para tornar o mundo um lugar melhor, William, um respeitado psicólogo infantil, tem a chance de realizar um estudo que pode ajudar a entender o desenvolvimento da maldade humana.
Porém a proposta, feita pelo misterioso David, coloca o psicólogo diante de um complexo dilema moral. Para saber se é um homem cruel por ter testemunhado o brutal assassinato de seus pais quando tinha apenas oito anos, David planeja repetir com outras famílias o mesmo que aconteceu com a sua, dando a William a chance de acompanhar o crescimento das crianças órfãs e descobrir a influência desse trauma no crescimento delas.
Mas até onde William será capaz de ir para atingir seus objetivos?
Em O sorriso da hiena, Gustavo Ávila cria uma trama complexa de suspense e jogos psicológicos, em uma história que vai manter o leitor fisgado até a última página enquanto acompanha o detetive Artur Veiga nas investigações para desvendar essa série de crimes que está aterrorizando a cidade.

Título: O Sorriso da Hiena (Skoob)
Autor: Gustavo Ávila
Gênero: Policial / Suspense Psicológico
Editora: Verus
Páginas: 266
Onde comprar: Amazon / Saraiva
Classificação: 9,8 (Excelente!)
Livro cedido em parceria com a editora. 




“− Um sorriso nem sempre quer dizer algo bom, detetive. Isso me lembra uma coisa. Um dia eu assisti a um documentário, um desses sobre natureza selvagem. Os pesquisadores estavam tentando desvendar o motivo dos sons emitidos pelas hienas. A maioria das pessoas acha que aquele som é uma risada, mas os pesquisadores chegaram à conclusão de que as hienas de menor posição hierárquica no grupo, hienas dominadas, frustradas, emitiam mais alto esse som que parece uma “risada”. Às vezes damos a impressão de que gostamos de alguma coisa, quando na verdade só estamos com medo, dor, fome. Não tem nada de engraçado em ser um animal carniceiro que se alimenta do que sobrou dos mortos.” (p. 135)

O livro já começa com uma cena forte: uma criança amarrada e amordaçada assiste aos pais serem assassinados. O pai tem a língua cortada com um alicate e a mãe recebe um tiro na cabeça.

Passam-se então vinte e quatro anos e o mesmo ato cruel acontece com outra família. Artur é o detetive da divisão de homicídios designado para o caso. Um tanto peculiar, ele possui a Síndrome de Asperger, que o torna alguém sincero demais, com pouca afinidade por convívio social e certa fixação por romances policiais, além de inteligente e astuto.

“Aos dez anos tinha sido diagnosticado com Síndrome de Asperger, um tipo de autismo que não causa nenhum atraso no desenvolvimento intelectual, mas molda a pessoa com certas peculiaridades. As características mais comuns são uma grande dificuldade de interagir com os outros e de entender emoções não verbais, os movimentos desajeitados e uma habilidade lógica acima da média, além da tendência a falar sempre o que se pensa.” (p. 21)

William é psicólogo infantil e noivo de Juliana, também psicóloga. Ele atende em um consultório e trabalha com crianças indicadas pela assistente social. Sua tese de doutorado o tornou conhecido no âmbito acadêmico, uma pesquisa de casos reais de crianças que passaram por algum tipo de situação dolorosa na infância. Contudo, sua pesquisa apresentava muito mais conteúdo teórico que prático.

“[...] Sua contribuição acadêmica foi feita, mas e a contribuição para o mundo real? Aquilo que é preciso coragem para ser feito de verdade?” (p. 47)

Quando o primeiro assassinato ocorre, Marcelo, o garoto de oito anos que foi forçado a ver a morte dos pais, é encaminhado até o consultório de William para acompanhamento psicológico. Visivelmente abatido, ele quase não fala. Contudo, pouco tempo depois surge outra vítima da mesma atrocidade: Luiza, uma garotinha também de oito anos que passou pela mesma coisa.

O psicólogo passa a se dedicar em ajudar as crianças, tanto por amor à sua profissão quanto para poder dar continuidade à sua tese de doutorado. É quando o próprio assassino entra em contato com William que as coisas saem totalmente do controle. Ele questiona se o que aconteceu durante sua infância mudou a pessoa que ele viria a ser. William é a pessoa ideal para estudar este caso, e todos os outros que ele irá trazer, afinal, matará de novo. Surge então uma proposta: ele acreditava que William tiraria algo bom de tudo isso.

“E a dor, sr. William, ela é contagiosa feito uma doença. Lá dentro a única coisa que eu aprendi foi a passar a minha para a frente, na esperança de que ela sumisse de vez. Mas ela não sumiu. E, não importava quantas vezes eu machucasse alguém, a minha dor continuava em mim.” (p. 75)

William passa a agir muito diferente, com o peso da proposta o esmagando. Ele se sente na obrigação de ajudar as crianças e de contribuir para sua pesquisa, descobrindo a influência que fatores externos exercem na personalidade de uma criança. Porém, ao se manter calado durante os crimes, sente-se o próprio monstro.

O sorriso da hiena é um misto de história policial, suspense psicológico e uma trama forte e impactante. A narrativa é repleta de suspense, temos todos os elementos de uma boa investigação policial: um assassino em série com um passado sombrio, um detetive com personalidade marcante, uma corrida contra o tempo a fim de parar os assassinatos. Mas a verdadeira cereja do bolo são os aspectos psicológicos por trás da história: William, o psicólogo infantil disposto a descobrir se os acontecimentos ruins na vida de uma criança podem transformá-la em uma pessoa ruim.

William faz um verdadeiro pacto com o Diabo ao aceitar a proposta do assassino e atender as crianças que foram vítimas de tais atrocidades. Dividido pela ética e pelo desejo de mudar o mundo – pelo menos em sua visão – o psicólogo torna sua pesquisa sobre os impactos da violência durante a infância na vida adulta seu único objetivo de vida. Tal pesquisa poderá descobrir o que leva as pessoas a se tornarem monstros e, desta forma, impedir que isso aconteça. Mas até que ponto William levará tal desejo?

“O mal é um estado natural do seu humano, que nasce sem a noção de certo e errado, sem consciência moral, agindo para saciar suas necessidades, movido apenas por seus instintos selvagens. Em um mundo onde o mal nasce com a gente, todos fariam qualquer coisa, sem apego à moralidade, para não sucumbir.” (p. 204)

O detetive Artur é um personagem diferente e marcante. Gostei bastante dele e até cheguei a me identificar em alguns pontos, rs, mas a parte ruim é que conhecemos muito pouco do seu passado, tornando-o um personagem apenas do presente, ao contrário de William e do próprio assassino.

A trama é cheia de reflexões e, o ponto forte, são todos os aspectos psicológicos, tanto do assassino – vítima de muita dor durante a infância – quanto do profissional que deveria ajudar as pessoas acima de tudo. Não que William não quisesse ajudar, muito pelo contrário, para ele, tal estudo é primordial para o futuro da humanidade. Afinal, as pessoas nascem assim ou o rumo que a sua vida toma as tornam más?

É uma obra para sentir aquela angústia no peito e um leve enjoo com a sociedade. Nos faz pensar até que ponto as boas intenções vão e até onde as intenções ruins influenciam as boas. Mais que um suspense, é um livro sobre pessoas, comportamento e – muita – psicologia.

A capa é diferente e sugestiva, possuindo um jogo de cores que me agradou, a obra conta também com revisão e diagramação impecáveis. O tema foge dos clichês policiais, com uma criatividade mórbida e um jogo de questões profundamente perturbadoras.

“− Olha só esse céu. [...]
− Sério – o velho reforçou, com um toque amigável de cotovelo −, dá uma olhada.
− Estou vendo. Escuro e cheio de nuvens. Igualzinho à vida.
− Você tem razão. Mas continua olhando. Espera... espera... está vendo? Está vendo como as nuvens se movem e vem ou outra, quando abre uma brecha, é possível ver uma estrela? Depois vem outra nuvem e a encobre novamente, só para ela aparecer brilhando em outra oportunidade.
− Isso só prova que a escuridão é muito maior.
− Isso só prova que a luz está sempre esperando uma brecha para aparecer.” (p. 235)







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15 comentários:

  1. Amei a resenha! Super quero ler esse livro!

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  2. Acabei de ler uma resenha que dizia que o livro possuía muitos furos e que a psicologia abordada no livro era super prejudicial. A conduta do psicólogo não é aceitável, eu acho. Eu não li o livro, mas não quero tirar conclusões precipitadas. Notei que você gostou, mas não sei se irei ler. Eu até gosto desse dilema do bem e do mal é se vale a pena abdicar de um pelo o outro, mas não gostei da forma como o autor estruturou isso.

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  3. Estou pasma com essa sinopse, e completa envolvida ao mesmo tempo.
    Adoro suspense psicológico porque consegue completamente focar minha mente no livro e só consigo aquietar quando acabo livro.
    É uma tema bem forte, e que pode ser completamente reflexivo.
    A capa não chamou muita atenção, mas a sinopse me ganhou.

    Beijinhos
    She is a Bookaholic

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  4. Quando me deparei com a primeira resenha a respeito desta obra já fiquei completamente entusiasmada, em saber como o autor desenvolveu esta trama, principalmente porque sou estudante de psicologia, e entendo perfeitamente do processo de pesquisa, e quanto a atitude deste psicologo perante a este teste foge totalmente do código de ética, porém o que mais me atraí nesta leitura e se iram descobrir quem e o assassino, e se o psicologo vai conseguir tirar sua própria conclusão, a respeito de crianças que passam por esta atrocidade. Ansiosa por esta leitura.

    Participe do TOP COMENTARISTA de AGOSTO, para participar e concorrer Ao livro "Dois Mundos", o primeiro da série "Tesouros da Tribo de Dana" da escritora Simone O. Marques, publicado numa edição linda pela Butterfly Editora.
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  5. Oi Amanda, curti a resenha e até fiquei curiosa apesar de não ser uma fã desse gênero que envolve muito suspense psicológico, mas achei as reflexões que ele aborda bem interessantes e a história possui personagens fortes e polêmicos como protagonistas, tudo isso é bem positivo. Sobre a Síndrome de Asperger, tenho assistido um seriado que a protagonista tem e estranhamente toda essa sinceridade a torna bem cativante e imagino que o mesmo vá acontecer com o detetive nessa história. Curti a dica e espero poder ler futuramente *__*

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  6. A primeira vez que vi este livro foi num video da Tati Feltrin no YT, ele já me parecia assustador, e agora que fez um hype e só tem notas boas estou bem curiosa para ler!

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  7. Amanda!
    Gosto dos livros no estilo, onde podemos confrontar determinados comportamentos do que é ou não ético, principalmente relacionado a pesquisas ‘científicas’ que poderão possibilitar comportamentos futuros sobre determinado assunto e posicionamento.
    Se os protagonistas são cativantes e bem estruturados pelo autor, fica ainda melhor de fazer a leitura.
    Desejo uma ótima semana!
    “A vida guarda a sabedoria do equilíbrio e nada acontece sem uma razão justa.” (Zíbia Gasparetto)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE AGOSTO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  8. A um tempo atrás, antes desse livro ser lançado pela Verus, eu estava vendo bastante gente falar dele. Esse não é o tipo de livro que eu costumo ler, mas eu estou com bastante vontade de ler ele. A história dele parece ser ótima, e muio bem construída. Fiquei com bastante vontade de saber mais desses assassinatos, e conhecer melhor esses personagens. O livro já está na minha listinha :D

    Beijos!

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  9. Oi Amanda.
    Fiquei com bastante vontade de ler esse livro. Tanto por casa do suspense quanto da parte psicológica!
    "As pessoas nascem assim ou o rumo que a sua vida toma as tornam más?" acho que é uma questão que muitos se fazem. Seria ótimo descobrir uma forma de evitar que as pessoas se tornassem más.
    Achei a capa bem bonita também.
    Mais um que vai para a lista de desejados rs
    Bjs

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  10. Amanda, adorei sua resenha. Que alegria saber que você gostou da história. O próximo livro que estou escrevendo também tem o detetive Artur investigando o caso. Nele irei falar mais sobre o passado dele. Espero que goste tanto quanto gostou dessa primeira história. Beijo grande.

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  11. Estava lendo em outro blog a resenha do mesmo, quando me deparei com a tua só que no caso a dele não tinha gostado Tanto ( comentou sobre erros de escrita), e isso foi bacana para ver a diferença entre a visão de duas pessoas sobre o mesmo livro. Em suma creio que seja um livro interessante, que tem uma proposta que de cara intriga a gente...Digo se fiquei curiosa de acompanhar a resenha,imagina o livro...Esta capa é incrível

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  12. Olá!
    Pretendo ler esse livro ainda esse ano <3
    A premissa é muito boa e adoro suspenses psicológicos.
    Preciso ler urgente!
    Beijos

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  13. Oi.
    Eu li várias resenhas super positivas sobre esse livro, mas assim também como li muitas resenhas negativas, eu gosto de livros que mechem com minha cabeça, mas enfim não sei se leria.
    Bjs.

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  14. Oi Amanda,
    E que trama forte e impactante! Vi muita gente comentando sobre esse livro, mas até então não tinha lido uma resenha para saber do que realmente era abordado nessa história. Amo livros que trazem uma boa investigação policial e, apesar desse livro abordar crimes cruéis e angustiantes, com certeza a leitura será de tirar o fôlego de tão viciante!
    Gostei do Artur, um detetive com Síndrome de Asperge, que personagem mais intrigante. Já o William é o tipo de personagem que reflete muito bem como a sociedade está sempre buscando o poder do conhecimento, trazendo a reflexão de até onde o ser humano vai para conquistar o tão desejado reconhecimento em sua pesquisa. Uma trama muito perturbadora.
    Beijos

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  15. Suspense psicológico é meu tipo de leitura.
    É interessante o foco em como a violência influencia crianças,cenas bem fortes,preciso escolher bem o momento pra começar uma trama impactante assim.
    " Isso só prova que a luz está sempre esperando uma brecha para aparecer." gostei~

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