✓ Resenha: A Fera - Brie Spangler

segunda-feira, 17 de julho de 2017





Sinopse: Dylan não é como a maior parte dos garotos de quinze anos. Ele é corpulento, tem quase dois metros de altura e tantos pelos no corpo que acabou ganhando o apelido de Fera na escola. Quando ele conhece Jamie, em uma sessão de terapia em grupo para adolescentes, se apaixona quase instantaneamente. Ela é linda, engraçada, inteligente e, ao contrário de todas as pessoas de sua idade, parece não se importar nem um pouco com a aparência dele. O que Dylan não sabe de início, porém, é que Jamie também não é como a maioria das garotas de quinze anos - ela é transgênera, ou seja, se identifica com o gênero feminino, mas foi designada com o sexo masculino ao nascer. Agora Dylan vai ter que decidir entre esconder seus sentimentos por medo do que os outros podem pensar ou enfrentar seus preconceitos e seguir seu coração.

Título: A Fera (Skoob)
Autor: Brie Spangler 
Gênero: YA / LGBT
Editora: Seguinte
Páginas: 384
Onde comprar: Amazon / Saraiva
Classificação:
Livro cedido em parceria com a editora. 




Dylan, apelidado de Fera pelos colegas da escola, é um garoto de 15 anos que tem 1,93m de altura, pesa 115kg e tem o corpo repleto de pelos - herança de seu falecido pai. É considerado estranho e feio por todos da escola, o que faz com que ele enfrente piadinhas de mau gosto o tempo todo. Apesar de ser muito inteligente e querer ser cientista, ninguém repara nisto, apenas veem seu porte físico e concluem que ele é ou deveria ser jogador de futebol americano. 

“As mesmas coisas estúpidas de sempre, tipo: “Não faça isso”, “Você é grande demais”, “Você é alto demais”, “Você é peludo demais”. Todo mundo adora me lembrar da minha aparência. Como se eu não tivesse espelho em casa.” (p. 5)

Apesar disto, Dylan tem um ótimo senso de humor e faz piadas de si mesmo. JP é seu melhor amigo, o típico garoto atraente e super popular, que todos querem agradar. Contudo, apesar de ser seu único amigo, muitas vezes o trata como seu guarda-costas particular, fazendo Dylan se questionar em até que ponto a amizade é verdadeira.

Um pouco antes das aulas começarem Dylan sofre um acidente, caindo do telhado de sua casa e quebrando a perna, o que a princípio é ótimo, pois em uma cadeira de rodas ele pode conversar com as outras pessoas sem precisar olhar para baixo. Contudo, após o médico ter dúvidas se a queda realmente foi um acidente, sua mãe o obriga a frequentar a terapia uma vez por semana.

Sua mãe é uma ótima pessoa, embora extremamente protetora e preocupada com o filho. Seu pai faleceu há 12 anos de câncer e, durante todo o livro, Dylan conversa com o pai através de orações, pedindo conselhos e aprovação – o que o frustra, pois nunca recebe nada.

Na primeira terapia, Dylan se depara com uma sala só de meninas, muitas das quais estavam ali por se automutilarem. De início, a Fera tem pensamentos rudes quanto à elas estarem ali, afinal, “todas são lindas e bem arrumadas e por isso não possuem motivos para se machucarem”. Apesar da péssima experiência, acaba conversando com uma garota durante a terapia, Jamie, descobrindo que, além de linda, ela também adora fotografia e gosta de tirar fotos de coisas simples do cotidiano, vendo beleza em tudo.

“Ela muda de uma imagem para outra. Sombras atrás de uma porta, um lápis de ponta quebrada, uma seringa vazia cercada de agulhas, as costas nuas de alguém, um fio de tecido, comida intocada, frascos vazios de remédio, uma cortina meio puxada, um close de seu olho e, finalmente, a ferrugem.” (p. 66)

A Fera passa a se encontrar frequentemente com Jamie, uma garota doce como nunca conheceu, pois sempre foi desprezado pelas meninas, mesmo se esforçando para ser gentil. Jamie também vê na Fera algo que ela não tinha: alguém que a trata com carinho e companheirismo. Contudo, sua vida vira de ponta cabeça quando ele descobre que ela é transgênero, afundando em um abismo de dúvidas sobre ficar com a garota que gosta ou o preconceito de ser visto com alguém como ela. 

Possuindo como exemplo de amizade apenas um garoto popular machista e sem nunca ter tido qualquer relacionamento antes – não conseguia nem conversar com as garotas pois todas o achavam repugnante – Dylan vê em Jamie a única pessoa que o viu como ele realmente é, por trás da aparência diferente, o que é exatamente o que Jamie também vê na Fera.

Fera é um livro forte, profundo e bonito. A autora trata de um assunto delicado – e que precisa ser urgentemente discutido na sociedade – de uma forma realista e romântica. A leitura também causa um milhão de reflexões: sobre a nossa sociedade de aparência, a forma como tratamos as outras pessoas, a valorização do físico e não do interior, a intolerância ao "diferente", a falta de empatia e de amor.

Temos três personagens adolescentes marcados por algum preconceito ou problema familiar. Dylan sempre sofreu por ser um garoto muito alto e peludo para a idade, sendo chamado de feio e outros termos pejorativos pelos alunos da escola. Jamie é transgênero, ou seja, possui uma identidade de gênero diferente da que lhe designaram ao nascer, sempre se sentiu uma garota, apesar de ter nascido como garoto, o que a faz enfrentar muito preconceito e violência em seu caminho. JP, por sua vez, é o garoto popular que todos acham bonito e querem seguir, porém esconde problemas familiares, como a ausência do pai e o alcoolismo da mãe.

Problemas na família também são relatados por Dylan, que sente uma profunda falta de seu pai, e lida com isso de uma maneira ruim, sempre esperando algum sinal dele vindo do céu.

Ao longo da trama descobrimos a vida difícil que tanto Dylan quanto Jamie levam apenas por não serem iguais aos demais, o bullying na escola e até mesmo as automutilações e agressões. 

A narrativa ocorre em primeira pessoa, portanto, vemos tudo com os olhos de Dylan. Senti várias coisas por ele ao longo da leitura, cheguei a ter raiva de algumas atitudes, mas também senti empatia por ele ser julgado de forma tão injusta, apenas por seu exterior, sendo que ele sempre se esforçou ao máximo para ser uma boa pessoa.

O tema é profundo e a narrativa faz com que nós nos sintamos na pele de Dylan e Jamie e como é ser julgado apenas pela aparência. Para Jamie, além do preconceito, ela enfrenta o risco de sofrer algum tipo de violência por ódio (aliás, sua mãe se preocupa muito mais do que ela, que sempre procura pensar positivo frente às situações). Apesar do que enfrenta, é uma garota adorável, possuindo uma visão otimista para todas as coisas e vendo beleza em todos os lugares, um dos motivos pelo qual ela gosta tanto de fotografar cenas comuns do dia-a-dia, despercebidas para todos os outros.

“[...] − Ela enxerga muito mais do que eu. Captura momentos imperceptíveis. Coisas que você acha que são fluidas, mas na verdade são sólidas. Como a luz. [...] Coisas inesperadas. Vulneráveis.” (p.70)

Conforme o livro se desenvolve, percebemos as mudanças que ocorrem na mentalidade de Dylan: como passa a se aceitar e aceitar as outras pessoas como elas são, encontrando em Jamie algo que nunca havia encontrado antes, um sentimento novo e profundo, que o faz querer ser alguém melhor.

“[...] De volta a um tempo em que você esquecia tudo e corria do jeito que bem entendesse. Antes que as opiniões das outras pessoas importassem. Estar com a Jamie me traz essa sensação. Livre e boa. Eu não sabia que outra pessoa poderia fazer você ser uma versão melhor de si mesmo.” (p. 132)

A obra traz uma mensagem muito forte sobre como a forma que tratamos os outros, reflete nas pessoas, assim como o julgamento pela aparência. Porém também mostra que o amor é mais forte do que tudo e que ele nos transforma no melhor que podemos ser. A trama é dolorosa, nos deparamos com muita dor e perda, mas temos uma lição incrível de aceitação e valorização da vida e do próximo.

Não pude deixar de torcer por Dylan e Jamie e por um final feliz, ainda mais por se tratar de um casal não convencional e saber que, no nosso mundo de não-ficção, existem muitos que sofrem todos os dias este mesmo tipo de preconceito e violência.

A narrativa de Brie Spangler é muito gostosa, a leitura envolve e flui em um ritmo tão bom que terminei em apenas três dias. Os personagens são o ponto forte da trama, principalmente Dylan e Jamie por ambos enfrentarem situações parecidas em seu cotidiano. Tanto a capa quanto a revisão e a diagramação estão impecáveis, o título Fera, como uma possível releitura de A Bela e a Fera, abordando a identidade de gênero é simplesmente incrível. O fato de a obra lidar com personagens adolescentes é um excelente incentivo ao respeito às diversidades para o público jovem – e para o adulto também, é claro – principalmente com tantos casos de crime de ódio (aliás, você sabia que a cada 28 horas um homossexual morre de forma violenta no Brasil?).

No final do livro há o site e o contato do Centro de Valorização da Vida, Casa da Cultura e Acolhimento LGBT, Associação Pró-Saúde Mental e Disque Direitos Humanos. Às vezes a vida pode ficar difícil, mas se machucar nunca será a solução. Tanto a autora quanto eu queremos dizer que SEMPRE haverá uma saída e você não está sozinho.

“Caso se sinta grande demais, saiba que é só porque às vezes o mundo é meio pequeno.” (p. 102)




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10 comentários:

  1. Amanda!
    Mais uma releitura do conto A Bela e a Fera que tanto amo.
    E que mudança feita pelo autor, trazendo a essência da Fera e vários questionamentos que devem mesmo ser discutidos, principalmente entre o público mais jovem, para entender melhor determinadas questões que ocorrem e para discutir a questão do preconceito e da diversidade das relações.
    O livro parece perfeito.
    Uma semana esplendorosa!
    “O amor é a única loucura de um sábio e a única sabedoria de um tolo.” (William Shakespeare)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE JULHO 3 livros, 3 ganhadores, participem.
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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  2. Um tema bem visado hoje em dia né? Acho bem importante e legal retratarem esses assuntos, principalmente em um livro.
    Devemos respeitar/aceitar as diferenças (tanto interna, como externa), tanto nossas, como as dos outros.
    Fiquei bem animada para ler a obra e saber como vai ser o desfecho dos dois personagens.
    Parece ser uma história bem emocionante e envolvente. E a edição está maravilhosa.
    Espero conferir em breve! Ainda mais depois dessa quantidade de 10 aí nas notinhas haha
    Beijos
    Caroline Garcia

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  3. Oi Amanda :)
    Vi comentários bem positivos sobre o livro e fiquei curiosa pra saber o desenrolar da história do Dylan com a Jamie. Não se tem muitos livros que falam sobre transgêneros e gostei da inserção na história. Dylan que sofre preconceito pela altura e a Jamie que sofre por ser transgênero. Casal nada convencional mesmo.
    Abc

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  4. Oi Amanda, achei tua resenha encantadora e através dela já fui criando empatia pelos personagens, Dylan, Jamie e até mesmo JP que parece esconder seus problemas na popularidade. A aceitação de Dylan de si mesmo e de Jamie como ela é deve trazer uma grande lição e a forma como ele é julgado pelos colegas deve resultar em cenas muito tristes, o livro parece ser carregado de situações cotidianas que infelizmente acontecem muito, mas é necessário falar desse assunto. Achei a premissa da história bem legal e o fato da autora levar os leitores a pensar sobre o tema muito importante, o ser humano precisa aprender a respeitar as pessoas independente de raça, gênero, escolhas... Curti a resenha e espero ter a oportunidade de ler essa história futuramente ;)

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  5. Olá!
    Estou bastante animada para ler esse livro. Amo A Bela e a Fera e por ser uma releitura já me interesso. Gostei muito da forma como a Fera é simbolizada no livro, pela aparência e diferença entre as pessoas.
    Espero ter a oportunidade de ler em breve <3
    Beijos

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  6. Oi, Amanda!!
    Já estou de olho nesse livro desde o seu lançamento, por acha a estória muito interessante e instigante e também por que adoro releituras de contos de fadas principalmente a A Bela e a Fera!!
    Beijoss

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  7. Olá, o livro aborda um tema muito presente na sociedade, pois todas as pessoas (mesmo que sem perceber) julgam os outros pela aparência, e a emocionante história de A Fera pode nos ensinar uma lição valiosa sobre o que realmente importa. Beijos.

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  8. Eu estou com bastante vontade de ler esse livro. Eu adoro o conto de A Bela e a Fera, e adoro tudo relacionado ao conto. Achei legal o assunto do livro gira de torno de aparências, e acho que vou gostar bastante da história. Os temas tratados no livro realmente são bem delicados, e pelo jeito a autora fez um ótimo trabalho no livro. O livro já está na minha listinha :)

    Beijos!

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  9. É a primeira vez que vejo a resenha desse livro, e confesso que fiquei muito interessada, é a primeira vez que vejo um livro que tem esse tema assim, é um livro tão original de forma que jamais vi, é tão ruim quando as pessoas só olham pra sua aparência e não enxergam a beleza que há no seu interior, é um livro bem forte, e um tapa na cara de alguns pois mostra que muitas vezes a nossa salvação esta naquela pessoa que todos desprezam pela aparência. Muito lindo. Quero muito ler.

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  10. Que resenha perfeita Amanda, parabéns!
    A sinopse por si só já me encantou quando vi o lançamento desse livro, mas agora depois dessa resenha espetacular o sentimento é de que preciso ler o quanto antes A Fera. Amei a proposta do livro, ao abordar um tema extremamente tabu na sociedade, esse livro vem mostrar a importância da empatia, de aprender a aceitar e a valorizar o próximo. Livro perfeito ♥
    Quero muito conhecer a história do Dylan e da Jamie, dois personagens cativantes que durante suas jornadas de amadurecimento e aceitação irão trazer valiosas lições para o leitor. É uma história envolvente e emocionante, com essa mensagem linda sobre a verdadeira beleza.
    Beijos

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