✓ Resenha: Nossas Horas Felizes - Gong Ji-Young

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Sinopse: Yujeong é uma jovem da alta sociedade coreana que, indiferente a tudo e a todos é incapaz de se entender com a própria família, não consegue encontrar um sentido para sua vida. Depois de três tentativas frustradas de suicídio, ela acaba definhando entre o álcool e o desespero. Seus familiares, por outro lado, não se esforçam para entendê-la, a não ser sua tia, a irmã Mônica, com quem sempre teve uma ligação especial. Disposta a fazer o que for preciso para que Yujeong volte a sentir vontade de viver, a freira sugere à sobrinha que as duas façam semanalmente uma visita a um preso no corredor da morte. E então elas conhecem Yunsu, um homem que anseia deixar este mundo por acreditar que só assim conseguirá se redimir de seus pecados. Apesar de sua origem humilde, ele e Yujeong têm algo em comum: um triste passado de abusos físicos e psicológicos. Aos poucos, durante os encontros na prisão, os dois jovens atormentados revelam um ao outro seus segredos mais obscuros e seus traumas do passado, criando uma conexão inesperada, que gradualmente desperta nessas duas pobres almas o desejo de viver. Mas as mãos de Yunsu estão sempre algemadas, os guardas estão constantemente por perto, e Yujeong sabe que aquelas horas felizes juntos podem ser tragicamente curtas.

Título: Nossas Horas Felizes (Skoob)
Autor: Gong Ji-Young
Gênero: Drama
Editora: Record
Páginas: 280
Onde comprar: Amazon / Saraiva
Classificação: 10 (Excelente!)
Livro cedido em parceria com a editora.




Poético, forte, impactante. Repleto de reflexões.

"Minha lembrança mais antiga na vida é a de querer matar."

Nossas Horas Felizes trás a história de Yujiong, uma garota linda e rica, que aos trinta anos, aparentemente tem tudo para ser feliz. Mas pouca gente sabe que ela não se sente assim. Nem um pouco feliz. Yujiong já tentou suicídio três vezes e carrega dentro de si um vazio imensurável, que nada e ninguém nunca preencheram.

Do outro lado da história temos Jeong que está preso aos vinte e sete anos, acusado de matar brutalmente três mulheres e estuprar a mais jovem, de apenas dezessete anos. Ele está, mais precisamente, no corredor da morte aguardando a sentença final.

Mas o que pessoas de mundos tão opostos teriam em comum?
Simplesmente a vontade de morrer.

A tia de Yujiong, Mônica, é a única pessoa com quem a garota melhor se identifica na família, e após a terceira tentativa de suicídio, ela resolve oferecer a sobrinha uma nova percepção da vida, levando-a para um presidio em Seul. Mônica é uma freira de setenta anos que visita os presos no corredor da morte com o propósito de salvar suas almas, ou ao menos levar algumas palavras de conforto. Relutante Yujiong acaba aceitando a proposta, já que nutre um carinho especial pela tia.

O prisioneiro com qual a moça terá contato é Jeong, que logo podemos notar que não possui vontade alguma de viver, e espera ansioso pela sentença de morte enquanto confinado a pequena cela algemado dia e noite.

"... saber não significa nada. Algumas vezes, saber é pior do que não saber. O mais importante é perceber. Há uma diferença entre saber e perceber, e a percepção só vem com o sofrimento"

Essa obra tem tantas reflexões que fica até difícil enumerá-las. Vou levantar alguma delas:

A vontade de morrer que Yujiong nutre é devida a criação da mãe e um estupro que sofreu na adolescência. Dona de uma personalidade egoísta, nunca conseguiu transmitir a filha amor e afeto, sempre exigente e egocêntrica moldou a personalidade da filha com base na sua, e após a morte do marido, pai de Yujiong, o relacionamento das duas perdeu completamente o sentido. Ela nunca deu a atenção devida a algo tão importante. Essa é uma das questões mais importantes da trama: o que transmitimos aos nossos filhos? Aquele velho ditado "faça o que eu mando, não faça o que eu faço" caminhando junto ao machismo e a culpabilização da vítima.

"Não importa quais sejam os seus pecados, eles não são tudo o que você é!"

Partindo ainda dessa questão de criação, temos o mesmo problema em Jeong. Durante a narrativa da protagonista, que é feita em primeira pessoa, aparecerem alguns capítulos com as anotações do assassino em seu diário. Essas anotações me levaram as lágrimas e a indignação a cada capítulo que apareciam. Acompanhamos a infância de uma criança arruinada pelos pais, alcoólatras. Uma criança com a responsabilidade de cuidar do irmão mais novos nas ruas, sozinho e ao relento. Esse livro tem uma cena de abuso/estupro com os irmãos ainda crianças no reformatório, que está entre as mais pesadas psicologicamente que eu já li. Então caímos novamente no problema citado a cima, e vemos que Yujiong e Jeong tem mais em comum do que imaginamos de início.

Outro problema grave: Os sistemas de reabilitação e carceres da Coreia do Sul, que é onde a trama é ambientada, mas que obviamente pode estender-se a praticamente todos os países do mundo. Um debate importantíssimo está nas entrelinhas: Você é a favor da pena de morte? E quando o sistema não é eficiente o bastante para julgar e condenar? Inocentes pagarão por essa falha?

Todo ato gera uma consequência. Muitas das vezes o seu ato é compreensível mas não justificável. E todo semana, encontro após encontro entre os dois personagens, onde de primeira gera-se a revolta da protagonista em saber dos crimes pelo qual Jeong é acusado, com o passar do tempo ela percebe que existe sim arrependimento, e pior, por fim nem tudo é como parece ser.

Por último, ainda posso citar a hipocrisia cristã. Apensar do Coreia não ser um país Cristão, a autora cita por inúmeras vezes ensinamentos de Jesus. A personagem da tia, que é freira, nos transmite lindas mensagens de compaixão e caridade ao próximo, sem julgamentos. E ainda trás o ponto de vista da família da vítima, e principalmente, o perdão.

"O que levara aquela mulher que, em suas próprias palavras, não tinha educação, nenhuma fé e nenhum conhecimento a tentar perdoar aquele homem? Que tipo de temeridade a fizera se apegar a algo que os seres humanos nunca superaram, mesmo que um milhão de teólogos gritassem até que as veias saltassem de seus pescoços e um milhão de livros fossem publicados conclamando as pessoas a perdoar, perdoar?

Poderia falar desse livro o dia todo, selecionei trinta quotes impactante, mas não teria como trazer todos aqui! Então para finalizar, vou dizer que esse livro é muito, mas muito mais profundo do que eu consegui transmitir nessa resenha. Que eu chorei e fiquei com enxaqueca pensando nas injustiças desse mundo. Que eu quero poder abraças e secar cada lágrima do meu filho e ficar sempre ao lado dele.

"Digamos que alguém tente matar um homem a facadas, mas acidentalmente corte a corda que está enrolada em volta do seu pescoço e ele sobreviva. E agora digamos que alguém tente cortar a corda que está em volta do seu pescoço, mas, em vez disso, a faca escorrega e essa pessoa mata o homem. A primeira pessoa seria uma heroína, mas a segunda seria executada. O mundo só julga nossas ações."

Esse livro precisa ser lido!







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10 comentários:

  1. Uau! Só de ler esses quites eu fiquei morrendo de vontade de ler!! Comecei pra valer a ler literatura asiática essa semana que passou com o japonês: Confissões e fiquei muito surpresa com a riqueza que a autora trabalhou o psicológico dos personagens e agora, vejo essa resenha maravilhosa de um livro coreano, e já quero pra ontem! Haha. Adoro livros que nos fazem refletir e que tiramos lições. Sempre fui do pensamento em que por mais cruel que a pessoa tenha sido, pode haver arrependimento. Já vi que me emocionarei muito com esse livro. Ansiosa pra ler. <3

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  2. Um livro que parece ser forte e que ainda não tinha ouvido falar mas que achei a resenha bem interessante. Imagino que a cena de abuso/estupro que você citou deva ser bem difícil de ser lida e o livro como um todo parece conter inúmeras mensagens e levar a vários questionamentos, e assim deve sim ser lido. Gostei da resenha ;)

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  3. Boa tarde!
    Já tinha lido uma outra resenha desse livro e posso te dizer que dele falavam tão bem quanto você. Deve ser uma daquelas leituras obrigatórias, que fazem mudar nossa forma de ver o mundo e repensar sobre nossa sociedade atual. Nossa, nem imagino sofrer o que os protagonistas sofreram e não ter o apoio de minha família. Os dois aprenderão lições de vida essenciais um com o outro, com certeza, assim como o leitor aparentemente aprende ao terminar a obra.
    Abraços.

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  4. OI Andréa.
    Que premissa mais interessante e triste, o fato de que os dois tem vontade de morrer partiu meu coração, mas estou ansiosa para conhecer cada um dos personagens, estou aqui me perguntando o que leva as pessoas a fazer o que faz, realmente essa é uma pura realidade de muito países e pessoas, enfim esse vai para minha lista com certeza.
    Bjs.

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  5. UAU! Uma baita história hein?
    Não conhecia essa obra ainda e pelo que conheci aqui, parece ser pra lá de emocionante e realista.
    Fiquei bastante interessada em conhecer a história desses personagens e como eles lidam com isso tudo. Além de ficar curiosíssima pra conhecer o desfecho de ambos.
    Já vou colocar na minha listinha, com certeza!
    Beijos,
    Caroline Garcia

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  6. Que premissa mais forte Andréa!
    Pelos quotes que você escolheu dá pra sentir a carga emocional desse livro. Gosto de livros que trazem boas reflexões e esse pelo jeito é extremamente carregado ao trazer as histórias de duas pessoas tão machucadas, imagino que os diálogos da Yujiong com o Jeong são fortes e impactantes. Nunca li um livro onde a trama é ambientada na Coreia do Sul, então esse livro é uma boa opção para conhecer mesmo que seja em um cenário tão doloroso e chocante.
    Beijos

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  7. Andréa!
    Fico impressionada como o que os pais transmitem para os filhos, pode causar danos irreparáveis em suas vidas e torná-los pessoas de índole má ou com aquele eterno vazio de não se sentir amado e tentar o suicídio.
    O livro deve ser bem pesado com descrições de estupros e abusos, fiquei bem curiosa por poder entender melhor todos os questionamentos que o livro levanta.
    Desejo uma ótima semana!
    “Onde há estudo - há sabedoria.” (Textos Judaicos)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE JUNHO 3 livros, 3 ganhadores, participem.
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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  8. Nossa! O livro levou nota 10, então deve ser realmente bom!
    Achei a trama bem diferente e triste.
    Ele não parece ser nem um pouco clichê, já que hoje em dia os livros mais lançados são de jovens que tentam se suicidar.
    Só que esse me pareceu bem mais pesado e reflexivo! Gostei bastante.

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  9. Nossa adoro histórias de alto impacto. Os escritores asiáticos têm se mostrado peritos nisso, pois já acompanhei algumas resenhas aqui e outros livros que li, as histórias trazem sempre muitas reflexões e temas importantes a serem discutidos

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  10. Olá Andrea!
    Ao ler sua resenha, parecia que eu sentia o impacto dos sofrimentos dos personagens, são temas bastante forte como o estupro na ifancia e na adolecescia, realmente fiquei impactada com isso. A premissa do livro e muito boa e ao mesmo tempo sofredora mas gostei muito da historia.

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