✓ Resenha: Revival - Stephen King

terça-feira, 3 de maio de 2016


Em uma cidadezinha na Nova Inglaterra, mais de meio século atrás, uma sombra recai sobre um menino que brinca com seus soldadinhos de plástico no quintal. Jamie Morton olha para o alto e vê a figura impressionante do novo pastor. O reverendo Charles Jacobs, junto com a bela esposa e o filho, chegam para reacender a fé local. Homens e meninos, mulheres e garotas, todos ficam encantados pela família perfeita e os sermões contagiantes.
Jamie e o reverendo passam a compartilhar um elo ainda mais forte, baseado em uma obsessão secreta. Até que uma desgraça atinge Jacobs e o faz ser banido da cidade.
Décadas depois, Jamie carrega seus próprios demônios. Integrante de uma banda que vive na estrada, ele leva uma vida nômade no mais puro estilo sexo, drogas e rock and roll, fugindo da própria tragédia familiar. Agora, com trinta e poucos anos, viciado em heroína, perdido, desesperado, Jamie reencontra o antigo pastor. O elo que os unia se transforma em um pacto que assustaria até o diabo, com sérias consequências para os dois, e Jamie percebe que “reviver” pode adquirir vários significados.

Título: Revival
Autor: Stephen King
Gênero: Suspense / Terror Psicológico
Editora: Suma de Letras
Páginas: 376
Melhor preço: R$37,90
Classificação: 10 (Excelente!)
Livro cedido em parceria com a editora.











“− Em meus experimentos, vislumbrei provas indiretas dessa coisa. Vi seus contornos em todas as curas que a eletricidade secreta realizou [...]. São fragmentos de alguma existência desconhecida além de nossas vidas. Em algum momento todo mundo se pergunta o que está por trás dos muros da morte [...]. Quero saber o que o universo tem guardado para todos nós assim que a vida se acaba, e pretendo descobrir.” (p. 340)

Jamie Morton tem seis anos quando ganha um exército de brinquedo de sua irmã mais velha, Claire. Enquanto o garoto brinca próximo a sua casa, na cidade de Harlow, Charles Jacobs, o novo ministro da igreja metodista, aparece e inicia uma conversa que, futuramente, evoluirá para uma forte ligação que o acompanhará por toda a vida.

Jacobs se torna amigo de Jamie e de sua família: os irmãos Terry, Con, Andy e Claire, seu pai Richard e sua mãe Laura. O ministro também possui uma bela e querida esposa, Patsy, e um adorável filho pequeno, Morrie.

Charlie, além de reverendo, é um amante da ciência da eletricidade, utilizando-a como exemplo durante os sermões na igreja, enquanto prega sobre Deus. Sua habilidade é tão grande que cria um aparelho que estimula os nervos através da eletricidade e o usa para ajudar Con, irmão de Jamie, que perde a voz após sofrer um acidente de esqui, devido a uma lesão nas cordas vocais.

Todavia, após três anos deste episódio e de uma vida agradável na cidade, um acidente terrível de carro leva sua esposa e seu filho. O choque para Charlie é tão intenso que repercute no pior sermão da história: o “Sermão Terrível”, em que o ministro praticamente prega a inexistência de Deus.

Jacobs deixa a cidade em seguida, após ser odiado pelos frequentadores da igreja. Jamie, buscando o vazio que seu amigo deixou, começa a tocar música, de forma despretensiosa, em uma guitarra Gibson. O hobby dá certo e o garoto, aos 14 anos, passa a integrar a banda Chrome Roses, ganhando também uma bela namorada chamada Astrid.

Catorze anos depois Jamie ainda vive de música, migrando de banda em banda para sustentar o vício adquirido em heroína. Encontra Jacobs coincidentemente na Feira Estadual de Tulsa, apresentando truques de mágica com energia elétrica para um grande público. O ex-amigo lhe ajuda mais uma vez, curando-o do vício em drogas através de uma aplicação de energia elétrica em seu lóbulo frontal.

O ex-ministro agora vive da energia. Seu tempo é voltado para pesquisas na área, sendo a “mágica” apresentada na Feira Estadual apenas uma forma de lucrar. Em seu truque, o Retrato dos Raios cria belos quadros apenas com uma carga de eletricidade. Não demora muito para Charlie começar a utilizar seus experimentos para “curar” as pessoas através de estímulos elétricos, fazendo-as, na verdade, de cobaias.

“Uma mulher com catarata afirmou ter voltado a enxergar e, sob as luzes brilhantes, a película leitosa realmente pareceu ter sumido de seus olhos. Um braço torto ficou reto. Um bebê que chorava e tinha algum problema cardíaco parou o choro como se tivessem desligado um interruptor. Um homem que chegou ao palco de muletas e a cabeça torta tirou o imobilizador de pescoço e jogou os apoios para o lado. Uma mulher com doença pulmonar obstrutiva crônica em estado avançado tirou a máscara de oxigênio. Ela afirmou que conseguia respirar normalmente e que o peso no peito tinha desaparecido”. (p. 221)

Contudo, Charlie torna-se um charlatão: alega realizar milagres através de Deus, ganhando muito dinheiro desta forma.

“[...] Continuei tentando encontrar algum sentido naquilo e não consegui. Ali havia pessoas que usavam computadores para entrar em contato com amigos e ler as notícias do dia, que consideravam satélites meteorológicos e transplantes de pulmão uma coisa normal, que esperavam viver trinta ou quarenta anos a mais que os bisavós. E, no entanto, ali estavam, caindo em uma história que faria o Papai Noel e a Fada dos Dentes parecerem realidade nua e crua. Jacobs enfiava aquela merda goela adentro deles, e todos adoravam. (p. 218)

Obcecado, a energia, ou energia secreta como ele chama, torna-se seu novo deus. O que as “vítimas” não sabem é que a cura traz sinistros efeitos colaterais, que vão desde alucinações com cores à catatonia, blecautes, atitudes psicóticas e internações em hospitais psiquiátricos.

“[...] Porque eu não estava dormindo. Eu tinha certeza disso. Algo me tirara de mim, assumindo o controle e dirigira meu corpo como se fosse um carro.” (p. 166)

Não é um livro propriamente de terror, mas sim de muito mistério, suspense e uma crescente apreensão psicológica. Tudo gira em torno da eletricidade e da sua fissura por Jacobs: a energia secreta e desconhecida que cura qualquer doença e pode fazer praticamente qualquer coisa, até mesmo destruir o mundo. É uma obra diferente das outras de Stephen King, pois trabalha o aspecto emocional, criando uma agonia que aumenta a cada descoberta das atrocidades que Charles faz em busca de seus objetivos egocêntricos, em uma realidade em que o mesmo acredita brincar – ou até mesmo ser – deus.

“[...] − Ele escreveu: “Todas as doenças são elétricas por natureza”. Respondi que aquilo era loucura. Ele apenas sorriu, virou outra página e escreveu por mais um tempo. Depois me entregou o bloco. Eu não me lembro exatamente de tudo, já faz muito tempo, mas nunca vou me esquecer da primeira frase: “A eletricidade é a base de toda a vida”. (p. 199)

A trama é muito inteligente, exigindo uma leitura atenta e minuciosa. Aspectos como vida após a morte e ressurreição são colocados em cena, criando uma tensão maior a cada página. O que Jacobs descobriu sobre o universo? Quão grande é o poder dessa eletricidade secreta? O quão longe ele irá para testar suas teorias, colocando a vida de milhares de pessoas em risco em nome de um Deus que ele não acredita mais?

E Jamie, qual será sua participação em tudo isso: um aliado de Charlie ou um inimigo que lhe deve a vida?

A ideia é muito original e bem elaborada, unindo todas as possíveis pontas soltas e coincidências do acaso em uma narrativa totalmente instigante, ou melhor dizendo, eletrizante. Um ponto interessante é que a história se interliga com a obra Joyland de King, relatando que Jacobs chegou a trabalhar no parque de diversões e foi de lá que tirou a ideia para elaborar os retratos com raios.

Como de praxe, os personagens são sólidos, com características bem definidas e histórias de vida complicadas. A capa é linda, possuindo efeito holográfico que combinam em tudo com o tema, as letras em vermelho, por sua vez, dão um tom imponente e marcante. Para completar, revisão e diagramação estão impecáveis.

Revival é mais do que recomendado se você estiver disposto a mergulhar em um universo obscuro e sair dele com uma pulga atrás da orelha, questionando, é claro, todas as coisas que a nossa vã filosofia sequer imagina.

“− Tudo é alimentado pela eletricidade secreta.

− Exato. Esse é o nome que eu uso.

− Um tipo de eletricidade que ninguém descobriu em todos esses anos, desde Escribônio. Até você aparecer. Um ministro da igreja que construía brinquedos a pilha como passatempo.

− Ah, mas ela é conhecida. Ou era. No De vermis mysteriis, escrito no final do século XV, Ludwig Prinn fala dela, chamando-a de “protestas magnas universi”, a energia que alimenta o universo. Prinn cita Escribônio, inclusive. Nos anos que se passaram desde que saí de Harlow, a potestas universum, a busca por encontrá-la e os esforços para domá-la se tornaram a razão da minha vida.” (p. 252)
King e suas play lists peculiares! rs
Confira:
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14 comentários:

  1. Como não amar os livros loucos de Stephen King ♥ Esse livro em particular tá na minha lista de desejos, acho a história dele bem curiosa e diferente.

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  2. Oiee

    Estou doida por esse livro. A capa é muto bonita e com o efeito deve ficar mais linda ainda.
    Não sabia disso ter ligação com Joyland, gostei.
    SK nunca decepciona. Adorei sua resenha.

    bjs
    Fernanda
    http://pacoteliterario.blogspot.com.br/

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  3. Eu não costumo me interessar por livros desse gênero, mas esse tem me deixado bem curiosa. A sua resenha está bem completa e sem revelar nenhum spoiler. fiquei ainda mais interessada e espero ter a coragem para ler.

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  4. Ola Amanda acredita que ainda não li nada do mestre King, gostei da premissa por nãos e tratar de um livro de horror propriamente dito, os pontos positivos destacados em sua resenha me chamou atenção, quem sabe não conheço a escrita do autor com esse livro. beijos

    Joyce
    www.livrosencantos.com

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  5. Saudações literárias! Esse livro está na fila para ser lido. Stephen King é muito foda! Acho que semana que vem começo a ler.

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  6. Oi, confesso que nunca li nenhum livro do King, e por seus livros ter uma pegada de suspense, indo para o terror,e mais ainda, para o psicológico, acho que não teria coragem de ler esse livro, já que sou bem medrosa e esse tipo de livro, me deixa bem perturbada e prefiro ler coisas que me deixem leve e feliz.
    bjus

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  7. Olá, tudo bem?
    Acredita que até hoje nao li nada do Stephen King, sei da sua fama, mas nao tenho coragem, hehe.
    Essa capa de Revival ficou mtoooo bom, nossa, a Suma caprichou mto.
    Adorei conhecer mais do livro aqui, eu nao devo ler, e bom que aqui ja sei pelo menos do que se trata.
    Beijos!

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  8. Oi, tudo certo?

    O que dizer de King? Amo sua maneira de escrever, o estilo nos arrasta aos medos primais, ao medo que temos escondido dentro de nós. Amei sua resenha, devorei esse livro em menos de um final de semana.

    Bjss
    Bel Góes

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  9. Oi
    Tudo bom?
    Apesar de ter alguns livros dele, nunca li nada
    Um verdadeiro absurdo, eu sei. Pretendo ler um dia, todos falam tão bem que acho que é um desses autores que não posso passar a vida sem ler.
    Adorei sua resenha
    Bjos

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  10. Olá, adorei a resenha. Sou super fã das obras do autora, mas esse ainda não tive a oportunidade de ler.

    Adoro a temática e acredito que será uma das minhas próximas aquisições.

    Abraços

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  11. Nossa eu ainda não li nada desse homem, dá pra acreditar? e olha que eu gosto do gênero e sei que a narrativa dele é bem interessante!

    preciso mudar isso, ainda mais depois dessa maravilhosa resenha!!!

    bjs

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  12. Olá Amanda,
    Sou apaixonada por Stephen King, sério, acho que ele é perfeito.
    A ideia desse livro é bem original e, pelo que li em sua resenha, é necessário ler com bastante atenção mesmo para não perder nada.
    Já anotei a dica!
    Menina, que playlist é essa? *-*
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

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  13. Caramba.... uma amiga minha tinha falado sobre esse livro no final do ano passado... e não imaginava que era tão legal. Ela só falou por alto. Muito obrigado pela resenha... vc me fez comprar esse livro!!! Hahahahaha... ainda mais quando vc disse que não era um livro de terro, mas de mistério e suspense... É o King saindo da zona de conforto? Quero ver isso.
    Www.sonhosemtinta.com.br

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  14. King é fantástico mesmo! A minha sobrinha está lendo Mr. Mercedes e adorando. Mal posso esperar que ela termine para eu ler a obra também. Revival nunca li, mas já li e ouvi tantos elogios que a vontade de ler cada aumenta mais. Adorei a sua resenha!

    Tatiana

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