✓Resenha: Pequenos Deuses - Terry Pratchett

sábado, 18 de julho de 2015

Sinopse: Religião é um assunto controverso em Discworld. Todo mundo tem sua própria opinião e até seus próprios deuses, que podem ser de todas as formas e tamanhos. Nesse ambiente tão competitivo, as divindades precisam marcar presença. E a melhor maneira de fazer isso certamente não é assumindo a forma de uma tartaruga. Nessas situações, você precisa, e rápido, de um assistente. De preferência alguém que não faça muitas perguntas...

TítuloPequenos Deuses
Série – Discworld – volume 13
AutorTerry Pratchett
EditoraBertrand Brasil
Formato – 16 x 23
Número de Páginas – 305
Melhor PreçoR$ 28,50 (Saraiva)





Algum dia, uma tartaruga vai aprender a voar.

Resenha:

Gramática, Tradução e Revisão: O livro tem um vocabulário rebuscado e um tanto inteligente. Bem escrito e, para minha surpresa, com uma tradução impecável e uma revisão de deixar qualquer formado em Letras boquiaberto. A pontuação – erro tão constante em livros traduzidos – me impressionou, com todas as vírgulas e pontos em seus devidos lugares, principalmente nos seguimentos de fala, diferenciando a ação de um diálogo – falou, disse, indagou – de um ato típico do interlocutor – “se remexeu”, “ajeitou suas vestes”, “pigarreou”. – Ou seja, encerrando (ou não) uma oração quando necessário. Os créditos da revisão não foram citados, porém, não posso deixar de elogiar o profissional que trabalhou em tal obra. Também é certo render os aplausos ao tradutor Alexandre Mandarino, que, decerto, eliminou todo aquele excesso irritante de pronomes tão necessários na língua inglesa e dispensáveis em algumas orações na língua portuguesa, fato que tornou a leitura agradável e deleitosa.

O medo é uma terra estranha. Nele, a obediência cresce como milho, em fileiras que facilitam a colheita. Mas, às vezes, nele crescem as batatas do desafio que florescem no subsolo.

O livro não tem capítulos, porém, há separações distintas entre uma cena e outra – que são rápidas – durante o desenrolar da trama, sem deixar a leitura cansativa. – O autor nos brinda com uma escrita inteligente, fluída e com um toque de ironia latente. Contrariando as publicações indicadas ao gênero teen ou Young adult – e eu mesma não classificaria o livro como tal, colocando-o no mesmo pé de igualdade do rejeitado (não por mim, que fique claro) “A Mão Esquerda de Deus” –, “Pequenos Deuses” força o leitor a ponderar sobre cada assunto apresentado, dadas as metáforas expostas. Na minha opinião, um artifício instigante que o autor usou e abusou com maestria.

Porque deuses precisam de crença, e humanos querem deuses.

Capa e Diagramação: Para ser sincera, e sem desmerecer o trabalho do artista em questão, a imagem de capa não é atrativa. Porém, e não posso deixar o fato passar despercebido, tem tudo a ver com o enredo. Em contrapartida, as letras metalizadas e em alto relevo são o deleite que incita qualquer ávido leitor. A contracapa acompanha a cena apresentada na frente do livro, em acabamento fosco – dando a impressão de “emborrachado” (algo que adoro) – e com a sinopse, bem como as principais opiniões, apresentada em um campo laminado e brilhoso. A diagramação não tem muito que mostrar, sendo que, conforme citado no tópico anterior, não há capítulo a ilustrar. Contudo, o espaçamento das linhas, assim como aqueles que distinguem uma cena da outra, foi primorosamente bem trabalhado para não cansar a vista dos leitores.

Quando se trabalha com o tempo todos os dias, parte dele tende a se pulverizar.

Enredo: Apesar de se tratar de uma série – assim acredito – não é preciso ler todos os volumes anteriores para compreender a trama descrita – afinal, eu mesma não conhecia os outros títulos e logo me inteirei nesse universo. – Em “Pequenos Deuses”, nos deparamos com Brutha, o simples, humilde e desengonçado servo (noviço) do (supostamente) poderoso e tenebroso deus Om – uma criatura representada por um touro ou uma águia. Em certa ocasião, Om surgiu como um cisne. – Dentre todos os ditos “fiéis” de Om, Brutha se mostra o único sincero e realmente crente da existência do poderoso deus, e tal fato fica evidente quando Om, sem uma inicial explanação – até porque nem o próprio sabe como o fato aconteceu –, se mostra como uma tartaruga insolente e bem debochada. Na verdade, a humildade de Brutha não o deixa compreender quão grande é sua sabedoria e o quanto sua memória fotográfica lhe pode ser benéfica. O jovem noviço não conhece a ganância, e – evitando spoilers – seu destino é surpreendente.
Ao primeiro momento, Discworld parece um mundo mágico, uma dimensão paralela – conforme a descrição poética apresentada nos dois primeiros parágrafos da página 07. – Porém, quando o autor dispara a narrar sobre os pensamentos e lembranças do general Fri’it, alguns cenários fazem uma sutil alusão a lugares conhecidos na nossa geografia – como o Egito e suas pirâmides, por exemplo. – A impressão que Terry Pratchett nos dá é que toda a teoria de Discworld teria sido relatada por uma tribo divina que escreveu tudo o que testemunhou no mundo à sua maneira, como se a Terra e suas divisões geográficas recebessem novos nomes e novos conceitos. Inteligente ao extremo, o enredo é digno de ser absorvido pelas mentes mais aguçadas. Portanto, se você, caro leitor, é fã de uma trama mastigada e sem mistérios, fuja do título. Agora, se está disposto a encarar o desafio de desvendar enigmas abordados em metáforas, embarque nessa aventura, porque – posso garantir – será mesmo uma viagem deslumbrante!

Não se podia adiar o inevitável. Porque, mais cedo ou mais tarde, se chegava ao local onde o inevitável simplesmente se sentava e esperava.

Personagens: O elenco de “Pequenos Deuses” se assemelha a figuras reais; personalidades do nosso cotidiano; provando o quão bem construído foi cada cerne. Como em toda obra, sempre temos os nossos preferidos, e os meus foram quatro:
— Brutha – o jovem noviço que foi criado pela avó. Um rapaz roliço, abobalhado e temeroso. Crente de toda a doutrina que lhe foi passada, se torna extremamente respeitoso diante de seus superiores. Não tem noção de um talento exímio que poderia colocá-lo como poderoso. Em certos momentos, tive a impressão de que estava lendo a história de um autista.
— Vorbis – exquisidor, chefe dos inquisidores, domina suas vítimas pelo silêncio, pelo seu olhar austero e pelo medo que suas feições impõem. Quando conhece Brutha e nota seu talento, trata-o como um aliado. Porém, seus intuitos são outros.
— Om – o deus que se apresenta ao único e verdadeiro fiel que encontra como uma tartaruga. Sarcástico e imponente, abusa da crença do jovem noviço para que o rapaz realize suas vontades.
— Fri’it – general ponderado que sabe o que pode ou não declarar. Suas ideias o conduzem a um destino um tanto tenebroso – aparentemente. – Viajado e conhecedor de terras e tribos distantes, sua luta pela fé ao grande deus Om o levou a se deparar com crenças que o fizeram ponderar sobre as doutrinas que aprendeu e que tanto defendeu.

Considerações Finais: “Pequenos Deuses” tem uma trama inteligente e muito bem narrada, própria para os leitores que adoram se aventurar em um mundo de palavras enigmáticas e em metáforas primorosamente elaboradas. Uma viagem alucinante e única, onde não é preciso conhecer o que antes foi apresentado para adentrar de cabeça nesse universo. Porém, é exatamente o que nos instiga a correr para os volumes anteriores. Não indico apenas para os jovens, mas para leitores de todas as idades, pois as filosofias sugeridas se tornam apologias de coisas que muito conhecemos e de tantas outras que desprezamos. Não obstante, é preciso ter a mente aberta para aceitar a ficção de Terry Pratchett, porque só os fracos concluirão essa viagem sem uma nova bagagem de conhecimento.

Espero que tenham gostado... Até a próxima, pessoal!

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4 comentários:

  1. Oi Vanessa!

    Não conhecia este livro, adorei sua resenha! Esse tipo de enredo me encanta tbm!
    Gostei de saber que a revisão está impecável, isso esta sendo cada vez mais difícil de se encontrar neh?

    Bem, mais uma para minha lista de desejados! rsrsrsrsr
    Bjo bjo^^

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    Respostas
    1. Oi, Ana Paula. Obrigada por sua visita e pelo seu comentário.

      Exatamente isso, um livro bem revisado se tornou um item raro nos dias de hoje, e quando nos deparamos com uma obra assim, nossa empolgação atinge níveis ninjas! kkkkkkkkkk

      Super indico essa leitura. Espero que goste.

      Beijoooos! ♥

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  2. Oi, não conhecia a série e fiquei querendo muito ler. O fato de ter metáforas, enigmas me chamou muito a atenção, além da revisão que foi impecável(e é bem difícil de se encontrar livro assim atualmente). Bjus.

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    Respostas
    1. Maisanara, obrigada por seu comentário. Indico o livro, é uma boa aventura literária, acho que vc vai gostar tanto quanto eu!

      Beijoooooos! ♥

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