✓Resenha: Escuridão Total Sem Estrelas - Stephen King

terça-feira, 26 de maio de 2015

Sinopse: Livro de contos.
1922 (1922, 2010): Wilfred James e Arlette James são donos de 100 acres em Hemingford Home. Enquanto sua irritante esposa quer vender sua parte para uma companhia, Wilfred quer manter suas terras. A cada dia que passa, Wilfred percebe que só há uma solução para o problema. Envenenando a mente de seu filho, Henry, os dois acabam por assassinar Arlette. A história é uma narração/confissão de Wilfred sobre como ocorreu o assassinato, e a série de terríveis eventos que foi desencadeada por causa do crime.
Gigante do Volante (Big Driver, 2010): Tess, uma escritora de suspense leve, vem suplementando sua renda por anos, servindo como oradora em alguns eventos. Em um compromisso de última hora, Tess vai fazer uma palestra na cidade de Chicopee. No caminho de volta para casa, ao pegar um atalho, um evento horrível mudará sua vida para sempre; após isso, Tess descobrirá um lado negro em si mesma que nunca imaginou possuir, e não descansará enquanto não obtiver a coisa que mais deseja: vingança.
Extensão Justa (Fair Extension, 2010): Dave Streeter está sofrendo com câncer e para aliviar a angústia resolve passear. Durante o passeio, ele conhece um homem misterioso que lhe oferece um “prolongamento de vida” de duas décadas. Porém, como é regra universal do mundo dos negócios, tudo tem um preço. Irá Streeter ceder à sedutora ideia de viver mais, em troca de prejudicar seriamente uma pessoa realmente próxima a ele?
Um Bom Casamento (A Good Marriage, 2010): Darcy Anderson, casada há 27 anos, aprende mais sobre o seu marido do que gostaria quando literalmente tropeça em uma caixa misteriosa sob uma mesa na garagem. Isto é apenas a ponta do iceberg, pois as descobertas que ela fará poderão colocar não só seu casamento e família em xeque, como também sua própria vida.
Under the Weather (Under the Weather, 2011): Ellen Franklin, esposa de Brad, está se recuperando de uma indisposição, por isso ele resolve deixá-la dormir até mais tarde enquanto sai para trabalhar. Brad fica preocupado apenas com o fato de que algumas pessoas possam querer xeretar um estranho mau cheiro que surgiu em seu apartamento, e acabem acordando sua esposa.
Título: Escuridão Total Sem Estrelas
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Pág. 392
Melhor preço: R$31,41
Classificação: 10 (Excelente!)




Escuridão Total Sem Estrelas já é maravilhoso só de olhar. A capa preta, a lombada preta, as bordas das páginas pretas e até o título com letras em preto chamam a atenção. Realmente uma escuridão total.

A obra é composta por quatro contos: 1922, Gigante do Volante, Extensão Justa e Um bom Casamento.

Logo no primeiro conto, “1922”, temos um thriller psicológico muito bem elaborado. Neste conto, o foco são as terríveis consequências que uma atitude de mau gosto – como o assassinato da sua esposa – pode trazer. Também temos, e não pode faltar, é claro, as cenas sobrenaturais, como o aparecimento do fantasma da esposa morta e dos seus discípulos: ratazanas do tamanho de gatos. Mais estranho ainda seria se essas ratazanas aparecessem com pedacinhos de estopa em seus bigodes. A mesma estopa que Wilfred usou para matar sua esposa, é claro, antes de jogá-la no poço de sua casa e lacrar todas as formas de saída.

“Acredito que exista outro homem dentro de cada homem. Um estranho, um Homem Conivente. E acredito que, em março de 1922, quando os céus do condado de Hemingford estavam brancos, e cada campo estava coberto de neve lamacenta, o Homem Conivente dentro do fazendeiro Wilfred James já tinha julgado minha esposa e decidido seu destino. Era uma justiça de sentença de morte. A Bíblia diz que um filho ingrato é como o dente de uma serpente, mas uma esposa irritante e ingrata é ainda pior.” (p. 12)

Conhecemos Wilfred através da sua própria carta, em que confessa o assassinato de sua esposa, com a ajuda do seu filho adolescente, depois de persuadi-lo por vários dias de que aquilo era a coisa certa a se fazer. O motivo de tanta brutalidade: 100 acres de terra.
Arlette simplesmente não queria anexar suas terras à fazenda que já possuíam, nem vendê-las para o marido, pois seu desejo era de deixar a vida na fazenda para morar na cidade, provavelmente Omaha. Queria trocá-las por dinheiro vivo, porém nem a sugestão de dividir em dois e providenciar o divórcio foi aceitável para Wilfred. Para ele, a única solução foi inicialmente sufocá-la com um saco de estopa e depois cortar-lhe a garganta, como ele já fazia com os porcos. Entretanto, a execução não foi nada fácil, muito menos simples. Arlette realmente lutou, antes de acabar no fundo do poço, literalmente, nos fundos da fazenda. 
Algo que me intrigou nessa história foi o motivo pelo qual Wilfred escolheu cortar-lhe a garganta. No seu discurso de bom pai para o filho, alegou que dessa forma seria rápido e a esposa não sofreria. Mas foi justamente o contrário, Wilfred desferiu tantas facadas e jorrou tanto sangue, que sinceramente fiquei me perguntando do porque simplesmente não sufocá-la com um travesseiro, já que ele havia embebedado Arlette e não teria tanta relutância por parte da esposa. Acho que, no fundo, ele queria mesmo ver a mulher sofrer.

“Agora dava para enxergar o fundo (do poço), e o que eu via era terrível. Arlette havia pousado sentada, as pernas esmagadas sob seu peso. A fronha se soltara e estava em seu colo. O edredom e a colcha tinham afrouxado e estavam em volta de seus ombros como uma estola rebuscada. O saco de estopa, preso em volta da cabeça, como uma rede de cabelo, completava a cena:ela quase parecia arrumada para um noite na cidade.” (p. 36)

Mas quais consequências tudo isso trará? Não só ao tentar esconder a história do xerife e das demais pessoas, mas também o que ele criou na mente de um adolescente de apenas 14 anos que foi cúmplice na morte da própria mãe e participou de tanta brutalidade, além de ter sido totalmente manipulado por seu pai?
E agora, tanto eu quanto Arlette perguntamos a Wilfred: Valeu a pena arrastar toda a sua família para o fundo do poço, por míseros acres de terra?

 “Passei muito tempo pensando em Arlette no fundo do poço com Elpis. Comecei a fantasiar que ela estivesse... não viva (eu estava agoniado, mas não maluco), mas de algum modo consciente. De algum modo observando de seu túmulo improvisado o que acontecia, e adorando.” (p 104)

No segundo conto, Gigante do Volante, é narrado a história da escritora Tess. Escritora da conhecida obra de mistério “Sociedade de Tricô de Willow Grove”, ela também realiza palestras desde que o local não seja muito longe da sua casa (o requisito é de não ter de dormir em hotel mais de uma noite). Convidada para palestrar em Chicopee pela bibliotecária Ramona, ela jamais imaginaria que, ao acatar a dica de Ramona e utilizar um atalho no caminho de volta para casa, teria um pneu do seu carro furado ao deparar com pedaços de madeira cheios de pregos na estrada, seria estuprada e quase assassinada por um homem de dois metros de altura e muito forte. 

“As tramas das histórias de terror e mistério – mesmo os mistérios sem derramamento de sangue e com apenas um cadáver dos quais seus fãs tanto gostavam – eram surpreendentemente parecidas, e, enquanto abria o celular, Tess pensou: Em uma história, o celular não funcionaria. Esse foi um daqueles casos em que a vida imita a arte, porque, quando a tela de seu Nokia se iluminou, as palavras FORA DE SERVIÇO apareceram. Claro. Conseguir usar o telefone seria fácil demais.” (p. 161)

Entre as cenas de brutalidade, a perda frequente da consciência e a descoberta de que não foi a primeira vítima, Tess percorrerá um longo caminho pela sua salvação e a de sua consciência.

“Bom, mas também todos tinham pregos, pensou ela. Em uma história de mistério — ou um filme de terror —, isso não teria sido um descuido, mas um plano. Uma armadilha, na verdade.” (p. 162)

Paranóica com o medo do estuprador e incapaz de denunciar o corrido à polícia (a imprensa não poderia descobrir o que ocorreu!), ela decide fazer justiça com suas próprias mãos, usando todos os recursos investigativos dos personagens das suas próprias histórias de mistério.

“[...] Tess saiu do meio dos arbustos e continuou a andar, pronta para voltar depressa àquele esconderijo no segundo em que visse outro farol. No mesmo segundo. Porque ele estava lá fora, em algum lugar. Ela percebeu então que, dali em diante, ele sempre estaria lá fora.” (p. 177)

O conto tem suspense do início ao fim, tornando impossível interromper a leitura (apesar dos trechos angustiantes). O desfecho se mostra imprevisível, ligando pontos que qualquer leitor deixaria passar despercebido.



No terceiro conto, “Extensão Justa”, Streeter é o personagem central, um homem com câncer e pouco tempo de vida. Em um dia comum, ao passar pela estrada Extensão Justa, na parte de trás de um aeroporto, se depara com um vendedor ambulante em uma barraquinha: George Odabi. O homem se diz um vendedor de extensões: de crédito, de pênis, de cabelo, de visão, de tempo, de amor, do que precisarem. Para Streeter lhe oferece uma extensão de vida: mais 15 anos de vida para o paciente terminal, por apenas 15% da sua renda nos próximos 15 anos. Parece justo, não?

“[...] Já vendi extensões de amor, às vezes chamadas de poções de amor, para os apaixonados, extensões de empréstimos para os endividados, e eles são muitos na economia atual, extensão de tempo para os atrasados, e uma vez uma extensão de visão para um cara que queria ser piloto da Força Aérea e sabia que não conseguiria passar no exame de vista.” (p. 271)

Obviamente, para Streeter, o homem é apenas um louco saído do hospício, apesar dele não compreender porque sua feição parece se modificar, ele é um homem rechonchudo, mas, ao olhar de novo, ele aparenta estar mais magro...

“Odabi abriu ainda mais o sorriso, e Streeter viu algo terrível e formidável: os dentes do homem não eram apenas muitos e grandes demais. Também eram afiados.” (p. 280)

Streeter entra na brincadeira e aceita sua oferta. Mas Odabi tem mais uma exigência, afinal, o mal retirado dele precisa ser passado para outra pessoa, alguém que ele odeie. Seu melhor amigo de infância é a resposta! Tom. Sempre mais bonito, melhor atleta, roubou sua namorado da época do colégio (e estão casados até hoje!), além de sempre ajudá-lo a passar nas matérias da escola... E o que ele havia ganhado em troca? Tom estava rico e com uma linda família e ele... Morria de câncer.

“[...] Tom não só tinha saúde, uma esposa linda e um ridículo querubim mijão, como também um filho bonito de 18 anos que não tinha vergonha de se despedir do pai com um beijo antes de sair com os amigos.” (p. 285)

O acordo é selado, apesar de Streeter ter certeza que aquele homem é um apenas um doido varrido. Entretanto, após alguns dias, sua saúde começa a melhorar, ao passo que sua raiva por Tom só aumenta.
Se o mal precisa ser passado adiante, e Streeter sente-se melhor, quem “ganhará” o câncer? Tom? Sua esposa? Algum dos seus três filhos? Quanta desgraça cairá sobre aquela família?
E, por fim, o que Streeter ganhará com isso?
Esse conto foi um dos meus preferidos, por se tratar mais do sobrenatural do que do real, apesar do ódio de Streeter ser bem real. Além do mais, acho que muitas pessoas reais aceitariam fazer um pacto desse tipo, por mais assustadoras que fossem as consequências.

O último conto, “Um bom casamento”, conta a vida de Darcy e Bob Anderson, que se conheceram na concessionária onde trabalhavam e acabaram se casando. Bob era numismata (colecionador de moedas), assim como o pai de Darcy, e acredito que isso tenha sido um dos pontos em comum que fizeram o casal se dar tão bem.  Foi um bom casamento por 27 anos: dois filhos, uma relação agradável e amorosa, Darcy achava que conhecia totalmente seu esposo, até encontrar uma misteriosa caixa na garagem.

“[...] Um casamento era como uma casa em constante construção: a cada ano havia mais e mais cômodos. Um casamento de um ano era como uma cabana; um que já durava 27 anos era uma mansão imensa e complexa. Com certeza haveria rachaduras e alguns lugares para guardar coisas, a maioria deles empoeirada e abandonada, alguns contendo lembranças desagradáveis que você preferiria não ter encontrado [...].” (p. 315)

Na caixa havia uma revista de sadomasoquismo. Como se não bastasse, embaixo da bancada da garagem, perto dessa caixa, Darcy também encontra um esconderijo secreto. Dentro dele há três cartões (cartão de doador de sangue da Cruz Vermelha, da biblioteca e habilitação) de uma mulher que ela não conhecia, mas que havia estampado os jornais há poucos dias: a 11ª vítima de “Beadie”. Todas foram mordidas e molestadas sexualmente, segundo os noticiários.

“O que ela estava pensando não podia ser verdade. Era como um daqueles delírios horripilantes que, às vezes, surgem da lama do fundo da mente, cintilando sua horrível plausibilidade: que a azia era o princípio de um infarto; a dor de cabeça, um tumor cerebral; e que o fato de Petra não ter ligado domingo a noite significava que sofrera um acidente de carro e agora estava em coma em algum hospital [...].” (p. 321)

O que a boa esposa Darcy fará? Será que ela realmente conhecia o marido nos belos 27 anos de casamento?
Um conto a se pensar. Uma pessoa comum. Um marido bom. E coisas que jamais poderíamos imaginar. O quão fundo conseguimos conhecer as pessoas? Esse conto, para mim, foi o de tema mais pesado, de um terror psicológico intenso e perturbador.

“[...] Um longo casamento, um bom casamento sob vários aspectos (mas não todos), daqueles que eram como uma piada: ela sabia que ele sabia, e ele sabia que ela sabia que ele sabia. Esse tipo de relacionamento era como olhar no espelho e ver outro espelho, um corredor deles se repetindo até o infinito [...].” (p. 376)

Os quatro contos selecionados para o livro mexem com o psicológico de qualquer leitor, diria que até de forma perturbadora. Nessa escuridão total, sem estrelas, o mestre do terror expõe pessoas comuns em situações inusitadas, trata-se do puro terror humano cometido contra si mesmo: assassinato. Claro que com algumas pitadinhas do sobrenatural em alguns contos, mas focando nesse tema. Temos o assassino da esposa, o estuprador, o que faz pacto com o diabo, o serial killer disfarçado de bom moço (e bom marido) – esse é o pior, na minha opinião! – São contos fortes, totalmente diferentes e repletos de terror psicológico, narrados com muito suspense e totalmente impossíveis de deixar de ler. Contudo, leitor, melhor ler enquanto está escuro...

Não tem como dar outra nota para Escuridão total sem estrelas: tema surreal, narrativa mais do que envolvente, personagens, diálogos e cenários pensados e definidos minuciosamente, capa mais adequada impossível, totalmente perfeito quanto à revisão e diagramação.

“Tentei dar o meu melhor em Escuridão total sem estrelas para mostrar o que as pessoas poderiam fazer, e como poderiam se comportar, sob certas circunstâncias terríveis. Não falta esperança às pessoas destas histórias, mas elas reconhecem que mesmo as nossas esperanças mais caras (e nossos desejos mais fervorosos em relação às pessoas à nossa volta e à sociedade e que vivemos) às vezes podem ser em vão. Com freqüência, até. Mas acho que estas histórias também dizem que a nobreza não reside principalmente no sucesso, mas na tentativa de fazer a coisa certa... e que é quando falhamos, ou nos afastamos deliberadamente do desafio, que o inferno se faz.” (trecho retirado do Posfácio - p. 389)

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2 comentários:

  1. Oi Amanda!

    Ha! King é o cara! kkkkk Amo seus livros e ele não merece nota menor que 10 mesmo! u.u rsrsrsrsrs
    Ainda não li este livro, apesar de o querer muito, ainda to esperando o preço baixar, pq neh? Ta bem carinho!

    Adorei sua resenha, a capa é linda demais mesmo! A editora caprixou na edição, sem mais! rsrsrsrsrs

    Bjo bjo^^

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  2. Uau, como não querer um livro que recebe dez em tudo.
    Se eu já queria, agora, quero mais ainda.!
    Beijos Amanda

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